sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Saudade de Clarice

"Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

“Saudade”, em “A descoberta do mundo”, de Clarice Lispector.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Esboço de uma auto-análise

É a primeira vez que vivencio (ou pelo menos percebo) a experiência da contratransferência. Acontece com quem trabalha com bicho homem e bicho mulher. Mas o que me surpreendeu é o fato de como essa contratransferência ajudou-me a entender melhor a mim mesmo, a entender por que algumas coisas acontecem e outras não. Por que algumas coisas dão certo e outras não. E por que não consigo sentir-me pleno.

Monstro é muito triste. Monstro quer morrer. Quer ajuda e não quer. Já cheguei a ter que insistir, convencê-lo a voltar. Inicialmente, pensava que meu interesse e até pena por Monstro era por causa de seu quadro lamentável. Mas um acontecimento entre colegas, aparentemente sem nenhuma relação com Monstro, fez-me perceber o real motivo de minha quase fascinação por ele.

Há um medo, uma insegurança que me assola, que me devasta. Já fora muito pior, mas esse medo ainda vive, é parte de mim. Ele se manifesta em diferentes esferas da vida, em diferentes momentos, mas em geral é latente, orienta silenciosamente meus passos. Dou-me conta de seu controle muito tempo depois do estrago ter sido feito. Quando o medo fala, ou melhor, quando grita, é uma catástrofe. Eu impressiono, choco, destruo, levo-me até o cúmulo do ridículo, se for preciso. O medo precisa falar, mesmo que por via da coragem. E o medo se corporifica, ou já é corporificado. O medo está no espelho, por isso não olho tanto para ele. Eu sou Monstro, nesse sentido. O que me inquieta em Monstro é sua aparência deplorável, é algo que acredito de alguma forma estar em mim. É o feio, o bizarro, dismórfico, que faz-me gritar. Mas o gritar não é de medo, é de êxtase. E o êxtase não é de prazer, é de medo. O medo enquanto êxtase; o êxtase enquanto medo. O medo como resposta ao medo.

É uma sensação de inadequação que não sei explicar. É por isso que não dou passos fundamentais em minha vida... é por isso que não tenho confiança suficiente para arriscar... é o medo do monstro que há em minha face. Monstro pode ser muitas palavras.

E lembro-me do passado, quando me apaixonei. Lembro-me, com dor, das muitas oportunidades, dos momentos naquela presença tão desejada. Lembro-me dos sinais, tão gritantes agora, das muitas deixas, das muitas pistas que não percebi. Ele falou com todas as letras silenciosas o motivo de minha presença, mas o medo cegou-me. O medo incapacitou-me. O medo falou por mim todo o tempo que estive com ele. O medo, aliás, fala todo o tempo. O medo está falando agora, está dizendo o quanto sou...

Coloco as mãos sobre o rosto e choro.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Centésimo

“Oh... sweet sorrow... let’s write the book tomorrow…” “Coming Home”, K. D. Lang.

Estamos aqui. Outra vez. Centésimo. Muito tempo passou. Tantas palavras escritas aqui... Pensamentos, idéias, conflitos, reflexões ou tudo isso junto. Algumas vezes nas entrelinhas, na maioria das vezes de forma escancarada. Como dizem, muito suor, sangue e lágrimas. Mas não é bem verdade: sou um homem bom, agradável, feliz a maior do tempo, e há tantas coisas doloridas aqui... E muitas coisas reduzidas, que perderam sua grandeza quando se tornaram palavras. Sinto que comecei num deserto e agora ele tem flores e água, mas a água é pouca e as flores são secas.
A dor de ontem me é antiga e exótica, mas ao mesmo tempo compreensível, até bonita. Eu era ingênuo, docemente ingênuo. Agora tenho muita maldade. Mas é melhor assim.
O cem é uma virada. Sinto assim. Um ano novo. Festa de réveillon. E como tal, dou-me o direito de fazer planos e promessas para o ano que chega.
Não quero desejar e amar a fantasia. Não quero fugir das pessoas, ficar escondido, sentado, aqui no escuro, no cantinho. Quero ir para o mundo, para tudo que há lá fora, bom e ruim.
Matei alguns corações, construí outros. Falei verdades que quase mataram. Sinto-me sozinho às vezes, falando para mim mesmo. Às vezes parece que escrevo para multidões.
Não importa. Continuaremos falando e escrevendo às multidões, mesmo que essas multidões sejam os múltiplos dentro de mim.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Minuto de tormenta

“I’ve got everything to lose...” “Everything to lose”, Dido.

Seguir pelo mundo, sem raiz, sem peso, sem compromisso. Não dá. Há coisas para terminar. Há uma vida para seguir. Queremos nos soltar, nos desprender de tudo. Quem tem coragem de dar o passo? Quem tem coragem de perder-se? Quem quer de fato viver? Quem quer colocar tudo a perder?
Hoje penso assim, amanhã preferirei a calmaria. Não quero saber, só sei que agora quero quebrar tudo. Mandar tudo pro inferno. O mundo é grande demais e não posso ficar aqui, parado, vendo tudo rodar. As coisas rodam de um modo esquizofrênico, não consigo acompanhar. Por isso não posso pensar duas vezes. Mas tenho medo. Vou morrer com medo. E me arrepender por toda a eternidade, se é que ela existe.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Tempo e acaso

Disse a mim mesmo: quando você menos esperava que acontecesse, aconteceu. E então retruco, também para mim mesmo: Mas você nem sabe o que aconteceu.
Verdade. Não sei. Só sei que, de início, atrapalhei-me com os olhos e os gestos. É algo que sempre acontece. Mas minha cara-de-pau quase nunca não falha. Vejo que você espera demais, cria demais, idealiza demais e eu posso não corresponder às suas expectativas. E nem pretendo.
Disse a você que tudo acontece ao acaso, mas isso não é motivo para arrancar os cabelos. Você diz que também pensa assim, mas não age assim. O acaso não parece ser sua filosofia de vida. Você está com medo de terminar assim, sozinho, está desesperado. Não pense isso do acaso, ele está ao nosso favor. Quando menos esperarmos, acontece. Mesmo que não saibamos o que de fato aconteceu.
Eu posso não estar aqui amanhã com você. Se estiver, só o tempo irá dizer. E só o tempo irá permitir. Não procurarei por isso, não farei por onde. Se tiver que ser nós dois, seremos. Tempo e acaso. Sempre ao nosso favor.
Achei estranho e bom ter agido assim, assertivamente. Ter colocado os pingos nos i’s, deixar dito, e bem dito, o que eu pretendia; ou melhor, o que não pretendia. Nesse dia concluí que precisamos aprender errando, não há outro modo. Precisamos machucar algumas pessoas para aprender. E precisamos ser machucados também.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Desafio e arte para um amigo

O blog é um espaço ideal para canalização de idéias, pensamentos, conflitos e reflexões. Representa uma tentativa, muitas vezes frustrada, de tentar transformar aquilo que está em nós, nos constitui ou nos afeta - em um termo, a 'coisa' - em palavra. Mas, como diz Clarice Lispector, tentar transformar a coisa em palavra diminui a coisa. Escrever sobre si é, portanto, um desafio e uma arte. Boa sorte e seja bem-vindo!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Indizível


O portão se fechou e olhei para a rua. Madrugada. Ainda não conseguia colocar em palavras, de modo ordenado, o que acontecera aquela noite. As palavras, os sinais, as entrelinhas. Você mostrou suas intenções e me colocou no devido lugar. Mostrou o que realmente queria. Sinto uma mistura de raiva com não sei mais o quê.

Não sei jogar, não sei. Não tenho essa confiança, essa ginga toda. Não sei usar os olhos, muito menos as palavras. E tudo já começou errado. Eu sou um erro para você.

Há coisas que são difíceis de serem traduzidas em palavras, por isso apenas sinto. Tentar tornar o indizível dizível é como diminuir, empobrecer a coisa, entende? Alguém me entende?
É por isso que desisto de falar sobre isso. Apenas sinto. Deixo apenas doer. É sempre assim. Quando não há nada a dizer, é porque algo está errado. E eu não tenho nada, absolutamente nada, para dizer agora.