quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Destruição

Destruição é a primeira palavra que me vêm à cabeça depois dessa crise toda. Destruição não-sei-do-quê, das coisas ou talvez de mim mesmo.
Estou doente e não consigo me recuperar. Não entendo porque essa gente porca não fica doente, por que sou sempre eu. Já fiz de tudo. Ou quase tudo. Mas é fato que está acontecendo uma grande injustiça.
Se depois do choro a dor física passasse e eu melhorasse... Mas não passa... Quero que isso melhore. Não agüento mais. Minha auto-estima está quase no ponto zero. Será o estresse, serão minhas cobranças? Por mais que eu tente relaxar e ser relaxado, não adianta.

Por que isso acontece comigo, meu deus, por quê? Por que logo comigo? Explique-me, explique-me... Não agüento mais sofrer.

sábado, 29 de outubro de 2011

Esboço de uma auto-análise III

É porque fui ferido no passado que hoje não quero mais o possível. É isso. Amo aquilo que é impossível, para que continue impossível. Para que não haja possibilidade de mais um golpe, de mais sangue. Mas sempre prefiro o risco, o que revela esse componente masoquista de minha personalidade. Estou triste por não saber conduzir as coisas por outro caminho. Odeio isso. Odeio mais porque de certa forma quero isso.
Eu era uma criança inocente e boba, que foi machucada. Atirei-me no fogo e quase morri. E hoje tento preservar essa criança, apenas cerceando o fogo. Não me atrevo a pular, não como antes. Apenas rodeio a fogueira, fingindo que vou pular, sentindo o calor, quase me queimando, numa tensão excitante, num jogo de sedução quase mortífera. Eu, criança, e o fogo que me destrói. Mas também sou o fogo, sou a destruição que há nele. Mas separar os dois é a forma que encontrei para salvar a criança. Esta parece não crescer.
Mas há um terrível fato que não posso ignorar: se a criança não cresce, ela precisa morrer.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Esboço de uma auto-análise II

Ultimamente, venho tendo uma vontade implicante, sádica. Vontade de ferir as pessoas nas entrelinhas, assim como me exponho nas entrelinhas. Apenas no virtual do virtual. Implicância mais do que implícita. Mas há uma raiva gostosa, uma raiva não-sei-do-quê, um prazer e um incômodo no qual preciso dar um fim. E diante dessa estranha sensação, dessa confusão, aquele personagem me vem à cabeça. Santa associação livre.
Ele é como os outros. É como os anteriores. Confuso, mas talvez saiba o que quer. Sim, ele sabe. Seu olhar o traiu. Mas não deixa de ser confuso e de ter medo. Eu também tenho medo, mas não sou confuso. Ah, isso não sou mesmo, nem um pouco. Mas voltemos a ele. Tem todos os elementos para me atrair. Ele está tomado pelo medo... Está inseguro, perdido. Como eu o quero.
É uma vontade sádica de aparecer, é isso. Vontade de dar minha cara à tapa. Aparecer, trágica e comicamente. Fazer barulho para enfim ser notado. Enfim encantar. Então não pode ser paixão, pois o interesse despertado nada mais é do que uma vontade de pisar, de por um momento provar que há pessoas em situação pior que a minha. Mas porque desejar o que foi meu passado? Porque sempre e somente essa alternativa? É masoquismo de minha parte?
Sinto que essa coisa me vem toda assim quando percebo (ou pelo menos entendo assim) que ele me ignora. Então vem essa coisa de destruir. Que delícia. Que tristeza.
É bom que isso se repita para que eu entenda o que acontece comigo, para entender o porquê de não conseguir gostar por outras vias, outros modos. Mas às vezes acho que não vou aprender. Não mesmo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O medo do fim

Por esses dias fui tomado daquele desespero familiar e silencioso. Aquele medo de estar perdendo tempo, rumo à morte, ao fim vazio. Já escrevi sobre a morte, perguntando por que não falamos dela, e isso continua sendo uma questão para mim. Aprendi que o risco não está nas coisas, está na impossibilidade de falar delas. Principalmente quando são tão fortes, tão intensas, tão perturbadoras.

Porém é mais do que isso, é mais do que simplesmente falar sobre... É falar sobre você, sobre seu próprio fim. Não é doloroso?

Estava aqui, sentado, na correria ansiosa, quando de súbito tornei-me consciente do meu fim. E escrever sobre isso torna-me ainda mais consciente. Por isso é tão difícil continuar. O que vem depois? Quero dizer, há algo depois? Será que essa história de céu e inferno é real? Parece-me que não existir mais é mais terrível que ir para o inferno. Não sei. Você morre e não existe mais. A história continua, o mundo continua, tudo continua. Você se foi. Não existe mais. O que é não existir? Como é não existir? Oh, deus...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Alma de Clarice

Só que dessa não se morre. Mas tudo, menos a angústia, não? Quando o mal vem, o peito se torna estreito, e aquele reconhecível cheiro de poeira molhada naquela coisa que antes se chamava alma e agora não é chamada nada. E a falta de esperança na esperança. E conformar-se sem resignar. Não se confessar a si próprio porque nem se tem mais o quê. Ou se tem e não se pode porque as palavras não viriam. Não ser o que realmente se é, e não se sabe o que realmente se é, só se sabe que não se está sendo. E então vem o desamparo de se estar vivo. Estou falando da angústia mesmo, do mal. Porque alguma angústia faz parte: o que é vivo, por ser vivo, se contrai.

“Angina Pectoris da Alma”, Clarice Lispector, em “A descoberta do mundo”.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

O homem da casa

Ao completar dezoito anos, ele começou a trabalhar. De carteira assinada. Assumiu uma responsabilidade quando se acreditava ser ele incapaz de saber o que é isso. É curioso como o trabalho, à primeira vista, transformara de modo súbito um menino em um homem. Ele passou a se comportar como um homem, a falar como um homem. Mais curiosa ainda é a reação da família; ao contrário, não houve reação e sim uma recepção calorosa e esperada ao novo homem da casa. Enfim, ele estava no caminho certo. Mas é provável que o trabalho não tenha sido o elemento causador dessa rompante transformação. Acredito que foi explicitado algo que estava latente, elaborado desde o nascimento dessa criatura.
É como um rito de passagem. Ele passou para outro estágio da vida e isso é motivo de orgulho. Percebo certa satisfação naquela atuação de homem, certo prazer em demonstrar força, independência, a ponto de sua atuação ser caricata. Na verdade, a maioria das pessoas não se dá conta de que ser homem e ser mulher é pura caricatura. É patético, tão patético que chega a irritar.
Mas ele não é um homem completo, ainda. Sua caricatura não está pronta. Para ser homem, ele precisa tirar sua carteira de motorista. O desejo de conquistar o lugar social do macho é tão insano que essa família ignora alguns pequenos grandes detalhes: 1) ele não tem um carro; 2) ele não tem uma garagem para o carro; 3) ele não tem dinheiro para comprar um carro; 4) para quê ele quer um carro? Para cumprir mais um papel masculino frente às mulheres e amigos?
É impressionante como ele não pode ser sem isso. Essa é sua existência, seu propósito de vida (mas nem por isso deixo de ridicularizá-lo). A carteira de motorista, entre tantos outros objetos, são-lhe inúteis, apenas servem para ‘comprovar’ sua masculinidade. São como símbolos de macheza.
Acredito que, no caso desse homem entre muitas aspas, há mais do que necessidade de provar que ele é homem: há uma necessidade de ocultar o fato de que ele não é homem. É alguém que, em seus plenos dezoito anos, consegue realizar a proeza de conservar a mentalidade de uma criança da idade de cinco, fazendo jus à tradição masculina de sua família. Como dizem por aí, “igualzinho ao pai”.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O sonho do príncipe

Às vezes um sonho é tão bom que tentamos voltar. Sonhar aquele sonho outra vez, mesmo que seja semi-acordado. O acordar, paradoxalmente, é reduzir ou apagar certa realidade. Realidade de uma ilusão.

Sonhei que meu amor aparecia. Não sabia por que ou quem, mas era meu amor, não dizia isso, mas sentia. Estava em minha cidade pseudo-natal. Conhecemo-nos à noite, ficamos juntos. Voltei para o Rio e foi um amor de verão. Um ano depois, voltei para lá e nos reencontramos por acaso. Meu amor, na rua, naquela rua. Que curioso. Já estive parado ali, há alguns anos, observando as pessoas passando com suas bicicletas, o meio de transporte por excelência naquela cidade. Aquela casa do outro lado. Sim, aquela casa. Realmente, muito curioso. Lembro que uma vez tropecei e quase caí, naquele mesmo ponto. E um amigo, que morava naquela casa, ria. A casa está vazia, hoje.
O amor de bicicleta avistou-me e deu meia-volta, atrapalhando-se. Conversamos e à noite nos entregamos, num desespero de um ano. Ficamos juntos mais vezes, saímos mais vezes. E nos apaixonamos. Mas não falamos disso, não precisávamos. Sentíamos.
E eu, tão irredutível em minhas decisões, troquei o dia da passagem para ficar mais uma semana na companhia de meu amor. Era tão boa, aquela presença... tempo que não sentia isso, muito tempo. Era algo bom de verdade, não um bom forçado. E antes que o ‘adeus’ ou o ‘até mais’ acontecesse, acordei. Acordamos?

Uma mistura curiosa de realidade e sonho. Fatos reais e ficções. Um encontro naquela cidade aconteceu, e foi intenso, mas não como esse. Meu amor parecia mistura de, acho, umas três pessoas. A condensação está clara: desejos passados, desejos presentes. Passado e presente em cópula. Mas o deslocamento não está claro.
Será a ansiedade de um próximo encontro? Será a ansiedade do casamento de um amigo? Ou será o desejo que pulsa com tanto ímpeto que está a ponto de ultrapassar-me, de romper-me?

Não tenho mais o que dizer, mas tenho muito para sentir. E sonhar.