sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Todo carnaval tem seu início


Todo dia um ninguém José acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o Zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
De que o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo

Toda rosa é rosa porque assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo carnaval tem seu fim
Todo carnaval tem seu fim
E é o fim, e é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz
Deixa eu pintar o meu nariz

“Todo carnaval tem seu fim”, Los Hermanos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O disparo de Siba


Um verso preso é um tiro
Que a arma não disparou
Pois o gatilho travou
E o tambor não deu o giro
Se escuta só o suspiro
De alguém que escapa assombrado
E o atirador, frustrado
Remóe a raiva no dente
Sentindo o mesmo que sente
Alguém que foi baleado

“Um verso preso”, Siba.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Ano novo tardio

“Quando eu sair pra nunca mais voltar
Vou te escrever, telefonar
Para contar tudo que eu vi, fotografei
E não mostrei”
“Quando eu achar”, Tulipa Ruiz.

Eu não esperava que, nos últimos dias de 2012, não haveria ânimo algum de pensar em alguma lista de promessas para o ano que chegava. Havia metas, objetivos, sonhos, mas ao mesmo tempo não havia. Não se trata de frustração, mas talvez de uma clara consciência de que não cumprirei promessa alguma. Ou antes, há um entendimento de que algumas coisas poderão se dar, mas só se darão quando houver vontade de fato, e algo precisará acontecer para que essa vontade brote. Parece-me que, em geral, o que gera a vontade para coisas boas e produtivas é a sensação da falta. Uma falta para além do vazio, uma falta que faz doer, capaz de matar, simbolicamente falando. E que depois dessa morte algo de novo apareça. E de novo.
Mas ainda prevalece o “eu tenho que...”. E de fato eu tenho. Tenho que escrever esse texto, pois as palavras podem servir de estímulo, podem me fazer andar. Andar e escrever. E pensar, e agir. Ou talvez não pensar e apenas agir. Afinal, o problema tem sido justamente pensar demais.

“Paro para procurar
Para me preparar
Para nunca parar”

É preciso sofrer certas quedas para que se aprenda a voar. É preciso que haja decepção, para que venham novas expectativas. É preciso odiar quando há amor demais. Ou melhor: é preciso ser indiferente. É preciso existir na indiferença.

Sim, eu amei intensamente em 2012.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Canto emblemático


Uma letra que resume todas as confissões
Cantadas pelo Kid
Uma história, uma promessa
Aquela que é entoada sempre
De modo sutil e explícito
Misterioso e revelador
Com poucas palavras, dizendo tudo...
Tudo deles
Tudo de nós...

“Sempre vai haver uma canção
Contando tudo de mim
Sempre vai haver uma voz
Cantando tudo
Tudo de nós”

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Para nós


Passei por lugares que me lembram amores presentes, passados e pendentes. Não escolhi ao acaso, não fiz trilhas ao acaso. E os passos que dei não foram apenas para recordar ou reviver. Foram para entender, para elaborar. Eu caminhei porque precisava ser, mesmo que não eu mesmo.
Para ti, para nós. Estou aqui outra vez, de mãos dadas com alguém, com outra cabeça, outra história, outro tempo. Mas tudo ainda precisa de resposta. Esse lugar tem um ranço de algo estranhamente vivido e mal saboreado. É curioso perceber como as coisas se repetem num mesmo lugar, estando fisicamente presente ou não. Esse lugar me marcou, de alguma forma. Esse lugar diz muito de algo que falta. Mas o amor tentou, eu tentei.
E hoje vejo que minha alma, a despeito daquelas que passaram por mim, deixando suas marcas em certas paredes, ruas, igrejas e casas, segue ainda saudosa. Uma dessas vidas vai para longe, indiferente de uma dessas histórias, criada à distância, não intencionada. Ela se vai, tecendo outras histórias, enriquecendo com elas, enquanto eu permaneço por aqui, também trilhando meus caminhos, no intuito de repetir ou recriar passos, como uma forma de restaurar o que não há para ser restaurado, para reviver o que nunca se deu.

É a indiferença do partir que faz doer.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Lamento em São Bernardo

De longe em longe, sento-me fadigado e escrevo uma linha. Digo em voz baixa:
-- Estraguei minha vida, estraguei-a estupidamente.
A agitação diminui.
-- Estraguei a minha vida estupidamente.
Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.
(...)
Para ser franco, declaro que esses infelizes não me inspiram simpatia. Lastimo a situação em que se acham, reconheço ter contribuído para isso mas não vou além. Estamos tão separados! A princípio estávamos juntos, mas esta desgraçada profissão nos distanciou.
Madalena entrou aqui cheia de bons sentimentos e bons propósitos. Os sentimentos e os propósitos esbarraram com a minha brutalidade e o meu egoísmo.
Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins.
(...)
É horrível! Se aparecesse alguém... estão todos dormindo.
(...)
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que horas, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.

“São Bernardo”, de Graciliano Ramos.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sequência poética

reverso ou não, a poesia e os garfos se colocam
quando por palavras necessitamos de tudo.
quando tudo nos falta
quando tudo nos detém
em instante tudo nos retém.
instável, todo amor que nunca há.
quando todo mar,
então a poesia nos coloca a todos sem palavras e
sem história literária,
sem amor e sem elaboração formal, sem sexo nas
manhãs.
absolutamente sem elaboração de alguma forma.
a poesia nunca terá forma como o que se leva do
sexo jamais é uma forma.
como o que se vive em amor não tem forma.
a poesia é sempre em quando impreciso mas
totalmente necessário.
e assim nunca se toca.

“a sequência de todos os passos”, de Alexandre Moraes.