segunda-feira, 19 de novembro de 2012

As cartas de Bethânia


Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras, ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso cartas de amor ridículas.
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor,
É que são ridículas.

Porém não tive coragem de abrir a mensagem
Porque, na incerteza, eu meditava
Dizia: “será de alegria, será de tristeza?”
Quanta verdade tristonha
Ou mentira risonha uma carta nos traz
E assim pensando, rasguei sua carta e queimei
Para não sofrer mais

Quanto a mim o amor passou
Eu só lhe peço que não faça como gente vulgar
E não me volte a cara quando passa por si
Nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor
Fiquemos um perante o outro
Como dois conhecidos desde a infância
Que se amaram um pouco quando meninos
Embora na vida adulta sigam outras afeições
Conserva-nos, caminho da alma, a memória de seu amor antigo e inútil.

“Cartas de amor”, de Maria Bethânia.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Permanecendo II


Hoje desejei como nunca jogar seu presente fora. Nunca teve muita utilidade, mas sabia que isso não faria diferença alguma, eu não esqueceria. Significaria apenas um ato simbólico, que mascararia a realidade, colocaria um véu sobre aquilo que não se deu.

“Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza”
“Queixa”, Caetano Veloso.

Desculpe, estou triste e entediado, sem vontade para nada. Como é possível não querer mais ver quem você mais quer ver? Aquela foto me deixou tão chateado. Você não precisa de mim, nunca precisou. Mas eu preciso imensamente de você.
Será que você conta as mesmas histórias para ele? Será que se faz de tímido para conseguir o que quer? Com certeza ele é bem melhor do que eu; caso contrário, a história não seria essa. Eu não estaria aqui, imóvel, observando e retorcendo a ferida.

“Baby, you're where dreams go to die
I regret the day your lovely carcass caught my eye
Baby, you're where dreams go to die
I've gotta to get away
I don't want to
But I have to try, oh baby”
“Where Dreams Go To Die”, John Grant.

Já sei o que o mundo tem a dizer a respeito. Você precisa se valorizar mais, blá blá blá. Todavia, mesmo cobrindo-me de ouro, ficará sempre aquela tristeza de um carinho não correspondido, ficará sempre aquela pergunta, “onde foi que errei?”. Permanecerá o prazer não realizado, a vontade abandonada, alguma coisa que nem existiu e já foi rejeitada, talvez por algo melhor.
Quero acabar com isso, quero acabar com tudo. E não quero parecer vulgar. Por isso fico aqui, em silêncio, tentando não incomodar, não querendo ver, mas vendo, e pensando em respirar outros ares, conhecer gente, deixar o tempo passar e torcer para não morrer enquanto isso tudo se vai.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O amor segundo Érico Veríssimo


Clarissa fecha a porta.
Melhor não acender a luz, para não quebrar o encantamento. Vai até a janela. A lua cheia sobre Jacarecanga. A rua quieta. Uma corneta tocando longe, num quartel. A presença silenciosa das estrelas. Cachorros uivando. Gatos cantando.
Oh! A noite enorme. E o silêncio fundo que de quando em quando se faz quando os galos e os cachorros se calam, quando todas as vozes morrem, quando nenhuma folha se move.
Clarissa encosta a cabeça na vidraça e fica olhando a rua.
Aos poucos vai percebendo um sonido, leve, leve, fugidio, fluído como o luar. Ilusão? Sim, deve ser ilusão. Mas não, agora de novo vêm até seus ouvidos os mesmos sons doces, que se apagam e acendem como as estrelas. Deve ser uma serenata. Clarissa escuta...
Lá na esquina surge um vulto familiar. O coração de Clarissa começa a bater, a bater, a bater com mais força, na expectativa dum grande acontecimento. O vulto se aproxima, vem vindo devagar na direção da casa dos Albuquerques, vem crescendo, vem se definindo. Não há mais dúvida. É ele. O Gato Orgulhoso, o gato selvagem que anda sozinho por todos os caminhos da terra, sem lei, sem amigos, sem rumo. Daqui a poucos instantes ele passará sob a janela.
(...)
A serenata continua, distante... Música ao longe...
De repente Clarissa tem a grande revelação. Encolhe-se transida, contente e ao mesmo tempo aflita, vendo pela primeira vez com clareza o que apenas vislumbrava duma maneira vaga, apagada, tímida.
A serenata dissolve-se na noite. Funde-se com o luar.
Mas o vulto familiar vai crescendo. Já se ouve o ruído de seus passos. Vasco se aproxima da janela, pára, ergue a cabeça.
– Alô Clarissa!
Ela sorri, baixa os olhos, quer dizer alguma coisa mas não consegue falar.

“Música ao longe”, de Érico Veríssimo.

sábado, 27 de outubro de 2012

O abraço de Proulx


A coisa de que Jack se lembrava e com que sonhava de uma forma que não conseguia evitar nem entender era a vez, naquele verão distante na Brokeback, em que Ennis chegara por trás e o puxara para junto dele, o braço mudo satisfazendo alguma fome compartilhada e assexuada.
Eles haviam ficado daquele jeito muito tempo diante do fogo, que ardia lançando reflexos vermelhos de luz, a sombra de corpos, uma coluna única na pedra. Ouvia-se o tique-taque dos minutos no relógio redondo no bolso de Ennis, dos gravetos virando carvão no fogo. Estrelas atravessavam as camadas de calor onduladas em cima do fogo. A respiração de Ennis saiu lenta e calma, ele gemeu, balançou um pouco no clarão e Jack encostou-se no palpitar regular do coração, as vibrações do gemido como uma eletricidade fraca, e, em pé, pegou um sono que não era sono mas outra coisa sonolenta e hipnótica até que Ennis, desencavado uma expressão enferrujada mas ainda conveniente de sua infância antes de perder a mãe, disse:
– Hora de ir para a cama, garoto. Já vou indo. Vamos, você está dormindo em pé feito um cavalo – e deu uma sacudida em Jack, um empurrão e foi-se embora na noite. Jack ouviu o barulho de suas esporas quando ele montou, as palavras “até amanhã”, e o bufar do cavalo, atrito do casco na pedra.
Mais tarde, aquele abraço sonolento consolidou-se em sua memória como o único momento de felicidade natural encantada em suas vidas separadas e difíceis. Nada estragava aquilo, nem mesmo o entendimento de que Ennis então não o abraçaria de frente porque não queria ver nem sentir que era Jack que tinha nos braços. E talvez, achava, nunca passassem muito daquilo. Que seja, que seja.

“O Segredo de Brokeback Mountain”, de Annie Proulx.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

As ruas de João


Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

João do Rio, em “A alma encantadora das ruas”.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tristes retornos

“Sim, quem nunca chorou
Certo nunca amou
Talvez nem alma tenha para sentir”
“Lágrima”, Maria Bethânia.

Palavras tortas e mal ditas
Contudo sinceras
Saudosas de teu olhar
O medo em parecer patético
Mas a necessidade de falar
De ligar
Tristes retornos sob a lua

Um sonho não compartilhado
Um sonho bobo, de tanta criação
Toda noite
Álcool e desejo de ti
Tristeza, lágrimas
A dor da rejeição
A dor do carinho dispensado
A incapacidade de esquecer
E a vontade de viver

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As metades de Aristófanes


Aqueles, porém, que são uma secção de homem ligam-se a homens e, enquanto são jovens, amam os homens e sentem grande prazer em deitar-se e serem abraçados por eles.
Há quem pretenda que eles não têm vergonha. Não é verdade: pois não é por impudência, mas por audácia, coragem e virilidade, que eles assim procedem, amando o que lhes é semelhante. E eis uma prova decisiva: quando atingem seu completo desenvolvimento, os jovens que possuem esta natureza são os únicos a se portarem como verdadeiros servidores do Estado. Quando, um pouco mais velhos, praticam a pederastia e não demonstram o mínimo desejo de contrair matrimônio e de ter filhos. Se casam, fazem-no unicamente para ceder à opinião pública, que a isso os obriga, pois para eles basta apenas viver com seus amados.
Um homem desta espécie, portanto, terá sempre de ser pederasta, e sempre enamorado da parte que lhe corresponde.
Tanto o pederasta como qualquer outro, quando encontram a sua metade correspondente, são transportados por uma onda de amor, de ternura e de simpatia; para tudo dizer numa palavra, não desejam estar separados nem um instante sequer. E são essas as pessoas que vivem juntas toda a vida, em conseguirem aliás explicar o que mutuamente esperam uma da outra; pois não parece ser o prazer dos sentidos a causa de tanto encanto em viver juntas. É evidente que a alma de cada uma deseja outra coisa que não conseguem dizer o que seja, que pressentem e às vezes exprimem de maneira misteriosa. Quando se encontram no leito uma ao lado da outra, se Hefaístos [deus dos ferreiros] então aparecesse com suas ferramentas e lhes perguntassem: -- “Que desejais, ó homens, um do outro?”, por certo nada saberiam dizer. Se Hefaístos perguntasse ainda: -- “Desejais, acaso, ficar no mesmo lugar, sempre juntos, inseparáveis, tanto de dia como de noite? Se quiserdes, derreter-vos-ei, e de dois fundirei um todo único. Agora, sois dois – depois sereis um único homem. Enquanto viverdes, sereis um só pela comunidade da vida; e quando morrerdes, também lá embaixo, no Hades, não deixareis de ser um em vez de dois e comum igualmente será a morte! Vede se é isso o que efetivamente desejais, e se, obtendo-o, sereis felizes?”
Ao ouvir tais palavras, não haverá um só, creio, que dissesse não, que desejasse outra coisa. Todos, ao contrário, teriam a impressão de que acabavam de ouvir precisamente aquilo por que ansiavam há tanto tempo! Ser unido e fundido no amado! Serem apenas um!
E a razão disso é que assim era nossa antiga natureza, pelo fato de havermos formado anteriormente um todo único. E o amor é o desejo e a ânsia dessa completação, dessa unidade.

Trecho do discurso de Aristófanes, em “Banquete”, de Platão.